Na próxima segunda e terça-feira, 29 e 30 de março, o Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio promoverá uma ação para rezar pelas vítimas da covid-19, pedir pela saúde de todos, em especial aos que lutam contra a doença e aos que trabalham na área da saúde. Trata-se da ação Vida que Cuida da Vida, em que cerca de mil cruzes, simbolizando as mais de 300 mil mortes por covid no país, serão posicionadas defronte ao Santuário. Ao final dos dois dias, às 17h e 18h, haverá missa e terço.

A ação será também uma forma coletiva de viver o luto que o Brasil e o mundo todo enfrentam – com oração, sintonia e respeito. Em especial, esta iniciativa visa lembrar também os ritos católicos que vivemos abreviados diante de uma pandemia: velórios e enterros sequer podem ser vividos adequadamente para preservar a vida do próximo.

Em entrevista ao Santuário, o psiquiatra Caetano Fenner Oliveira fala sobre a importância do processo de luto e, em especial, durante uma pandemia. O profissional destaca que é tempo da gentileza ser colocada em prática em tempo integral, já que estamos carentes de atenção, de proximidade e de boas notícias.

 

 

Santuário: Os ritos como velório e enterro são considerados consagrados pelo catolicismo. Este tipo de ritual contribui para a aceitação/vivência do luto?

São sagrados para todas as orientações religiosas. Inclusive, nas práticas agnósticas, o ritual coletivo de elaboração do luto atravessa milênios de história humana. Alguns antropólogos datam o início da civilização não com a escrita e sim com algum vestígio de cerimônia de perda, principalmente das perdas trágicas. Por isso, nada mais indicador de empatia e impulso civilizatório do que quando nos consolamos uns aos outros num momento de morte. É difícil elaborar alguma perda sem o apoio de um ritual e da companhia de outras pessoas importantes, por isso a pandemia de lutos interrompidos e empilhados em nosso imaginário de povo.

 

Santuário: Que tipo de dano/prejuízo a abreviação das cerimônias pode nos trazer em relação ao luto/aceitação? Quais sentimentos podem ser potencializados?

O processo de lutos mal elaborados e empilhados é tema de área específica da psicologia, pouco estudada por nós médicos. Durante as grandes guerras, diversos povos vivenciaram esta tragédia crônica e muita publicação científica ilumina o tema: lutos interrompidos serão transmitidos até a segunda ou terceira geração. A mente humana fica funcionando pela metade, sempre aquém de sua potência quando se acumulam perdas e faltas. No curto prazo, a gente aguenta, mas depois de um tempo a mente desmorona. Ela precisa de um amparo, nem que seja uma experiência coletiva de enlutamento, como foi a morte do Ayrton Senna ou como anualmente celebramos na Páscoa a crucificação.

 

Santuário: Diante da pandemia, como podemos ajudar alguém que perdeu um familiar/amigo para o covid – em momentos em que sequer podemos abraçar ao próximo? Qual atitude/fala podemos adotar?

Ajudando quem está perto a gente consegue se ajudar. Cicatrizando feridas de ambos, todos em um empenho fraterno, isso leva a um fortalecimento do vínculo comunitário, nem que seja virtual. Nenhuma mensagem em época pandêmica é piegas: viva o “bom dia!” das tias e avós do WhatsApp! E, se postada diariamente, transmite sim muita energia positiva. Precisamos ser mais gentis uns com os outros quase como escovamos os dentes, como se fosse uma higiene mental básica. Isso cola o tecido social rasgado de tanta briga política e óbitos estúpidos.

 

Santuário: Quem vivencia a situação de perder alguém e não conseguir passar por estes rituais de despedida, como pode amenizar a situação? A fé e a devoção podem ser aliadas neste processo?

De uns dez anos para cá, se publica muito a relação da espiritualidade, em um sentido amplo e descolado das religiões com saúde mental. É impressionante a capacidade de adaptação e sobrevivência, mesmo naquelas pessoas que praticam sua fé ainda que no foro íntimo! A meditação e a contemplação do sagrado, mediada por oração ou melodia, induz bem-estar e principalmente durante esta travessia no deserto que estamos tendo globalmente.

Se anuncia uma terceira onda de vírus e outra terceira onda de lockdown e lovedown, um declínio generalizado de amores e afetos trocados, da pele com a pele. E se não tem pele, vamos de mouse mesmo, se não tem abraço, vamos de redes sociais. Mas agora com a proposta fraterna, de diálogo, cooperação porque brigar cansa demais.