É difícil mensurar ou contabilizar quantas vidas a religiosa Irmã Clecy Maria Baccin tocou ao longo de sua trajetória. Isso porque ao morar em, pelo menos, quatro países em sua vida como missionária e religiosa, ela transformou a realidade de homens, mulheres e famílias em diferentes cantos do mapa, mostrando que não há fronteiras para quem está verdadeiramente intencionado em fazer o bem. Temas como racismo, tráfico de mulheres, violência e até fome parecem não combinar com o tom de voz doce e o jeito fraterno com que a Irmã conduz uma conversa – mas são estas temáticas que estiveram presentes durante toda sua vida religiosa, por meio de desafios que ela encarou, dia após dia, para transformar realidades.

Irmã Clecy pertence à Congregação das Missionárias de São Carlos, conhecidas como Carlistas ou Scalabrinianas. Completou 81 anos neste mês de julho e está, há quase um ano, na Casa das Irmãs Carlistas de Caravaggio. Por isso, se faz presente no dia a dia do Santuário.

 

 

Natural de Casca, de suas mais de oito décadas de vida, pode se dizer que pelo menos seis delas foram vividas como religiosa. E a temática migração, defendida e debatida pelo Papa Francisco com tanta propriedade, é intrínseca na trajetória da Irmã. Neste bate-papo, a Irmã relembra de momentos intensos de sua trajetória e deixa diversos ensinamentos de quem rodou por muitos continentes com uma única missão: fazer o bem, promover a paz e devolver dignidade para migrantes.

 

 

Como o tema migração se tornou algo tão associado à sua história?

Posso dividir minha história em duas partes: uma delas dediquei à educação, e a outra à questão da migração. Comecei a minha história ao lecionar em Bento Gonçalves, no Colégio Medianeira e atuei em outros colégios da região, como o São Carlos, em Caxias do Sul.
Quando eu fui enviada para a Itália, meu trabalho lá era estudar para acolher novas vocações. Era 1973 e, depois disso, voltei a Caxias do Sul. O que sempre contou para que eu ficasse no exterior também era porque eu falava outros idiomas.

Quais idiomas, Irmã? Qual sua formação?

Estudei letras neolatinas, então sou fluente em francês, espanhol, italiano, latim e português (Portugal). Isso permitiu muito meu trabalho. Também tenho formação e mestrado em Ciências Sociais.

E como foi sua identificação com a migração?

A migração sempre existiu na bíblia, em diversas passagens. Atuei em Paris, ao ajudar a comunidade portuguesa por lá. Nos anos 80, Portugal não pertencia à comunidade europeia e as mulheres chegavam a Paris para trabalhar na área de limpeza por lá, e os homens, na construção civil. Além de ajudar na organização de uma igreja por lá, ao realizar o Crisma, a Primeira Comunhão, os batizados e outros sacramentos, ajudávamos diretamente pais e mães com seus filhos. As crianças vinham de Portugal para a França e acabavam até esquecendo o seu idioma, então, eu tinha também essa missão!

 

 

Eram muitas etnias, então, que precisavam receber ajuda…

Sim! Houve momentos em que reuníamos comunidades senegalesas, francesas, portuguesas, espanholas ao mesmo tempo. Cada grupo linguístico tinha sua catequese, sua aula, sua celebração. Mas a lembrança da união destes povos chega a me arrepiar. Criávamos uma relação muito próxima com esse povo. Muitas vezes, cabia a nós ir com os pais na escola porque eles não conseguiam se comunicar com os professores dos filhos. Aprendi muita coisa por lá.

E os laços com estas pessoas, Irmã, permanecem?

Sim! Se soubesse quantos afilhados eu tenho só desta época… são pelo menos uns oito. E o bom é que, hoje em dia, com a internet, eles descobrem a gente facilmente e o contato permanece. Também trabalhei em Roma, na década de 1990, onde iniciei um período de redimensionar a presença da Congregação pelo mundo. Foi um trabalho importante, e que eu acabei ficando mais tempo que o esperado porque, justamente, eu tinha a facilidade de falar outros idiomas. Por lá, eu precisava conscientizar as Irmãs que era preciso iniciar, também, um movimento de leigos. Não só de religiosas, mas também de leigos: a igreja precisa destes dois movimentos juntos.

E além da Itália e França, quais outros países houve esse trabalho?

Passei pela Alemanha, onde atuava em uma grande comunidade de italianos que ficava bem no Norte da Alemanha. Em Bruxelas, onde fiz catequese para os migrantes. Na Polônia, criamos uma comunidade e estruturamos a ajuda. E depois retornei à Itália, onde criei uma rede bastante importante de voluntários.

Como foi essa experiência?

Em especial, houve um grupo de mulheres que desenvolvi um trabalho. Um dia, avistei elas na frente da Catedral de Piacenza, chorando juntas e rezando o terço. Ao chegar lá, elas me contaram que deixaram a família – a maioria delas era do Peru e Equador – e precisavam permanecer na Itália. Eram professoras, médicas, enfermeiras, e que precisavam não só aprender italiano, mas também isso.

Então organizei aulas para elas e, pouco a pouco, percebi que havia uma lacuna que elas poderiam atuar. Isso porque a cidade tinha muitos idosos que precisavam de cuidadoras. Então, busquei voluntários que ensinaram estas mulheres a cuidar dos vovôs e, assim, tinham um emprego e onde ficar. Ensinávamos tudo: como cuidar deles, como dar os remédios, fazer a comida. Aos poucos, fundei uma associação que me fez perceber que, quando você faz o bem, todo mundo colabora. Este foi um dos períodos que mais me marcou. Após, fui a Itália novamente, Albânia, Marrocos. E depois de seis anos, eu decidi voltar.

Mas em território brasileiro, a ajuda aos migrantes seguiu firme em seu propósito, certo?

Muito! Na chegada dos senegaleses a Caxias do Sul, eu ajudei a traduzir os documentos, a entender o que eles tinham a nos dizer. Viramos dia e noite, e senti muita dificuldade. Era um pouco frustrante porque eu queria fazer mais, mas era um momento em que a cidade e a Serra Gaúcha começavam a receber os migrantes, a entender, a abrir a mente. A região foi se abrindo aos poucos e se lembrando que nós todos também somos migrantes.

E hoje, qual é seu maior desejo quando o tema é migração?

Meu sonho é que sempre exista Irmãs e vocações que estejam dispostas a este trabalho. Trabalhar com a migração também é uma vocação. Não importa a cor da pele, o idioma, a raça. Quem está na nossa frente é um irmão, um filho de Deus. Se ele migrou, é porque tem vontade de vencer. Meu sonho hoje é que exista pessoas dispostas a desenvolver este trabalho, a promover cursos, ensinar, educar, catequizar. Que tenhamos todos a mente aberta e aceitar que todo dia é uma nova oportunidade de fazer o bem, independente da religião da pessoa.

Fotos: Mariana Ávila