Durante o mês de setembro, a Igreja se dedica a reflexão e contemplação sobre a Palavra Divina. Deus, desde o início de sua obra criadora, revelou-se aos seres humanos como a amigos (DV, 2), de modo a lhes indicar os caminhos de vida e salvação. Como nos afirma a carta aos Hebreus, “muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho(Hb 1, 1-2a). Na plenitude dos templos, aprouve a Deus revela-se por meio de Seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, que encarnou-se na humanidade como Verbo Eterno do Pai. Dessa forma, Cristo que passou no meio de nós, nos falou as palavra de Deus. A Igreja, comunidade dos fiéis, rica de uma longo passado e tradição, conservou a Palavra como o maior tesouro que alguém pode receber em sua vida. Distingue-se na compreensão teológica que a Sagrada Escritura é Palavra de Deus, redigida por mãos humanas e inspirada pelo Espírito Santo. Por meio desta Palavra revelada, a Igreja cresce e se alimenta, de modo a encontrar Nela, a luz para continuar a missão do próprio Cristo. Assim, a Igreja, realiza sua obra missionária ao transmitir a todos os seres humanos, de todos os tempos e lugares, esta Palavra que é o próprio Cristo com sua Boa-Nova de redenção.

 

Além de ser expressão da própria presença de Cristo, a Palavra de Deus é alimento que dá sustentação e vitalidade para os cristãos. Na Sagrada Escritura, se pode contemplar a presença de Deus que atua na história para conduzir todos os seres humanos à salvação. Por isto, esta Palavra é de Vida Eterna, caminho de salvação para todos os que a aceitam como verdade. Dentro da celebração litúrgica, a Palavra de Deus tem tempo e lugar privilegiados. Dizemos que na Liturgia da Palavra, como parte da Celebração Eucarística, Deus nos fala, Deus comunica sua Boa-Nova que é para todos alimento e caminho que conduz ao Reino definitivo. “Esta palavra de Deus, que é proclamada na celebração dos divinos mistérios, não só se refere às circunstâncias atuais, mas também olha para o passado e penetra o futuro, e nos faz ver quão desejáveis são as coisas que esperamos, para que, no meio das vicissitudes do mundo, nossos corações estejam firmemente postos onde está a verdadeira alegria.” (Introdução geral ao Lecionário).

 

 

Todo aquele se coloca como ouvinte da Palavra e está lhe toca o coração, precisa antes de tudo, tornar-se instrumento de anúncio, a fim de que a Boa-Nova trazida por Cristo transforme as realidades. É como uma semente que encontra terreno fértil no coração humano, germina e produz frutos. Assim, a Palavra escutada precisa ser testemunhada, tornada vida por meio dos frutos que Ela mesma é capaz de produzir. Toda a proposta cristã encontra sua plenitude no amor (Rm, 13,10). Logo, aquele que se alimenta da Palavra, deve tornar-se responsável pela vivência do amor, que na perspectiva cristã abarca duas dimensões: amor a Deus e amor aos irmãos. “É fundamental compreender que a plenitude da Lei, bem como de todas as Escrituras divinas, é o amor. Por isso, quem julga ter compreendido as Escrituras, ou pelo menos uma parte qualquer delas, mas não se empenha a construir, através da sua inteligência, este duplo amor de Deus e do próximo, demonstra que ainda não as compreendeu”. (VD, 103).

 

 

A comunidade dos fiéis que se reúne para celebrar o mistério pascal de Cristo, se coloca em atitude de escuta diante da Palavra, que com ação do Espírito, é capaz de converter o coração e a vida, a fim de que a mensagem seja internalizada e se transforme em frutos. Sendo assim, a Palavra de Deus precisa ter um espaço digno no conjunto da celebração. As instruções litúrgicas aconselham as comunidades a organizem um mesa própria para a proclamação das leituras. O ambão é, por excelência, o lugar donde deve ser anunciada a Palavra de Deus. Dentro da celebração da Eucaristia, altar e ambão são como que a mesma mesa, da qual nos nutrimos de um mesmo alimento, a saber, o próprio Cristo.

A Igreja no Brasil, dentro da celebração do mês da Bíblia, sempre propõe um livro da Sagrada Escritura para ser estudado e contemplado. O escolhido para este ano de 2019 é a Primeira Carta de São João, com o lema, “Nós amamos porque Deus primeiro nos amou” (1Jo 4,19). Pode-se destacar que a finalidade principal, para a qual foi redigida a carta joanina, é a preocupação do apóstolo com a compreensão do Evangelho. No cristianismo nascente, as comunidades, sobretudo as joaninas, enfrentavam crises internas, onde haviam grupos que estavam distorcendo a fé cristã. As questões problematizadas se referiam a cristologia, sobretudo, acerca da encarnação do Verbo Divino. Alguns membros da comunidade afirmavam que a condição humana de Jesus era somente um aparência. Por isso, logo no início da carta, o autor sagrado enfatiza a humanidade de Cristo e a necessidade de estar em comunhão com tal princípio. Ao longo da epístola, é possível perceber que se trata de uma grande catequese sobre pontos essenciais da fé (cristologia, moral, escatologia), de modo que se evite a corrupção da doutrina pregada e testemunhada pelos apóstolos.

 

Que este mês da Bíblia seja para nós oportunidade de meditação, reflexão e testemunho da verdadeira Palavra de Vida. A vontade do Senhor é que sua mensagem seja vivida e anunciada, a fim de todos encontrem o caminho da redenção. Esta Palavra viva e eficaz (Hb. 4, 12) é para nós princípio de comunhão, alimento de eternidade. “O amor de Deus é perfeito, naquele que, verdadeiramente, guarda sua Palavra” (1Jo 2,5).

 

Luciano Dalmolin – Seminarista, estudante de Teologia. Diocese de Caxias do Sul.