A pandemia que atinge o mundo inteiro provoca reflexões e mudanças no entendimento de diversos fatores – da economia, do consumo e, especialmente, da vida humana. Da Serra Gaúcha para a Itália, o Padre Leonardo Dal’Osto é um dos moradores da Europa que sente de perto os impactos sociais que o isolamento causa. O avanço da covid-19 e os reflexos que a pandemia causa em todo o mundo é tema desta entrevista com o jovem religioso, que mora em Roma para cursar seu doutorado em Teologia Dogmática na Universidade Gregoriana. Dal’Osto, que pertence à Diocese de Caxias do Sul, mora na Itália desde agosto de 2019, e deve permanecer no país europeu até a metade de 2022. Padre Leonardo é muito próximo também do Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio: foi neste espaço que desempenhou sua última função antes de viajar para a Itália.

 

 

Pergunta: Quando foi que a Itália e seus moradores perceberam a gravidade da covid-19?

Padre Leonardo: A Itália percebeu a doença de forma mais intensa em fins de fevereiro. Inicialmente, tivemos fechamento no Norte da Itália, na região de Lombardia. Depois, no dia 9 de março, tivemos o fechamento do restante de Itália.

E por que demorou tanto para que o país compreendesse a gravidade do momento, na sua opinião?

Padre Leonardo: Demorou por questões de caráter econômico, de não querer parar o comércio, as empresas e as indústrias, além das pressões do poder econômico. Também houve a desconfiança de que não fosse uma doença tão séria. As mortes começaram em 21 de fevereiro e tivemos um pico em que chegou a quase mil mortes em um dia. Agora, temos cerca de 400 a 500 mortes por dia, ainda. A previsão é que as mortes por covid-19 parem de acontecer mais ou menos em junho.

E como mudou a vida de vocês?

Padre Leonardo: Quando Roma e as demais regiões da Itália não estavam fechadas, nós tínhamos a notícia de que o Norte não funcionava. Mas nós tínhamos aula, a vida seguia normal. A partir do decreto de 9 de março, tudo foi fechado. Inclusive nós, que moramos em uma instituição que pertence à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e que acolhe padres diocesanos brasileiros, não saímos mais de casa desde o dia 9 de março. Nós só poderemos sair após a revogação da quarentena, que esperamos que seja no começo do maio. Os jornais noticiam que a segunda fase desta quarentena seja lá pelo dia 4 de maio.

O Papa sentenciou “No tempo atual há muito silêncio. Também o silêncio pode ser ouvido”. O que ficou mais evidente neste momento, na sua opinião: a capacidade de ouvir, a generosidade ou a sobreposição de que hoje em dia, a ganância do homem é responsável por muitas catástrofes?

Padre Leonardo: Penso que o Papa e as pessoas que se deixaram tocar por este momento perceberam que a pandemia mostrou a crueldade do nosso sistema que prioriza o dinheiro, a economia, e faz as pessoas serem somente uma engrenagem na economia. Estamos vivendo esse eixo que é o lucro. Para obtenção do lucro, acabamos escravizando e deixando que as pessoas morram. O Papa percebeu isso! E esse também foi um tempo em que a ganância ficou muito desmascarada. Ao mesmo tempo, também tivemos um certo despertar para o valor da vida humana como dom de Deus. E isso aparece não só nas pessoas mais simples, mas um pouco nos nossos governos, principalmente na Europa, que se deram conta de que o grande valor que nós temos, enquanto sociedade, é justamente os seres humanos. O grande valor de uma nação é seu povo, é algo para o qual estamos despertando. O Papa nos chama a atenção para isso e até porque, na igreja católica, o ser humano é sempre a imagem e semelhança de Deus. E toda a realidade econômica deve estar voltada para o serviço do ser humano, e não o contrário. O Papa pede, especialmente, que tenhamos a capacidade de viver a solidariedade neste tempo. De poder ajudar.

Quais os pensamentos que não devemos abandonar diante de uma pandemia – ou o que tem ajudado a mente das pessoas a não desanimar diante de um momento tão difícil?

Padre Leonardo: A pandemia nos ajuda a ter várias reflexões. Lembrar a pequenez do ser humano: somos tão frágeis e pensamos que somos além do que somos. Somos arrogantes, soberbos, e aí vem um vírus e acaba com nossa vida. Recordamos também que essa vida humana, pequena e simples, é lugar da manifestação de Deus no mundo. Deus se revela na vida humana e especialmente na sua fragilidade. Por isso, entendemos quando Deus prefere e ama os pequenos, simples, os pobres e aqueles que são descartados pela sociedade.

Também entendemos que nós podemos viver com menos. Nós estamos em uma sociedade que está acostumada a viver para consumir e encontrar felicidade naquilo que consome. Agora entendemos que conseguimos viver com menos, e que nós também destruímos menos o planeta que habitamos. O nosso sistema econômico é um sistema que transforma o meio ambiente em mercadoria e consumo, e nosso planeta também teve a possibilidade de ter um pit-stop. E que nós, enquanto seres humanos, podemos olhar para isso e perceber que o planeta precisa respirar. Nós podemos transformar nossa forma de estabelecer relações econômicas. A própria crise da pandemia talvez seja uma resposta que o planeta queira dar a nós.

E de que forma podemos ser igreja em um momento de pandemia? Quais pensamentos ou atitudes que, na sua opinião, podemos reforçar para contribuir e permitir que o momento nos torne melhor enquanto humanos?

Padre Leonardo: Como comunidade de fé, desde sempre os laços afetivos eram vividos dentro do contexto comunitário. Estarmos juntos com os outros, estarmos próximo dos outros. Neste momento, a pandemia nos obrigou a entender que agora “cuidar do outro” significa deixar o outro em casa. A Itália percebeu isso e os países todos estão percebendo isso. Mas a única forma de garantir a vida do outro é o distanciamento social. Isso não faz de nos menos igreja!

A igreja é a comunidade de fé e a argamassa, o que nos une, é justamente a capacidade de amar. Amar o outro é permitir, ajudar, facilitar que o outro esteja em sua casa. Transformar as estruturas.

Sermos igreja é exercer a capacidade de amar. Eu penso que em tempos de crise, nós também temos maneiras criativas de viver a fé. É claro que não é o ideal participar das missas apenas pela televisão ou apenas pelo Facebook. Mas é o que temos agora. Em tempos de crise, nós precisamos usar os instrumentos para manter estabelecidos os laços. A igreja é muito mais do que o templo, do que estar dentro do templo. A igreja é esse povo de Deus que caminha junto, que respira junto e que vive no amor enquanto olha para o céu conduzido por Jesus para a eternidade, caminhando neste mundo e enfrentando as dificuldades.