“Um menino nasceu, o mundo tornou a começar”

(Guimarães Rosa)

 

A Festa do Natal tem como ponto central o nascimento do Filho de Deus, Jesus Cristo. A encarnação do Verbo Divino é, por assim dizer, um dos mais belos e profundos mistérios que o ser humano pode contemplar. O desígnio amoroso de Deus expressou-se, de forma plena, quando o Filho, que “existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas esvaziou-se a si mesmo […], e tornou-se igual aos homens” (Cf. Fl 2, 6-7). Sendo assim, o nascimento de Jesus revela muito mais do que a simples presença do Filho no meio do povo, mas um abaixamento, um esvaziamento de Deus para chegar ao mais profundo da condição humana. Os relatos da natividade de Cristo que se encontram nos Evangelhos, falam da simplicidade, da pobreza e da sobriedade, como formas por meio das quais, o Verbo Divino quis se revelar, de acordo com a vontade do Pai. O lugar, os objetos, as personagens que compõem o cenário do nascimento de Jesus falam da maneira simples e pobre, humilde e singela com que Deus se mostrou. No rosto daquela humilde criança, brilhava a maior expressão do amor, um amor que se inclinou para tocar e transformar a humanidade inteira. Recorda o Papa Francisco na carta Admirabile signum: “Se nos apresenta Deus, num menino, para fazer-Se acolher nos nossos braços. Naquela fraqueza e fragilidade, esconde o seu poder que tudo cria e transforma. Parece impossível, mas é assim: em Jesus, Deus foi criança e, nesta condição, quis revelar a grandeza do seu amor, que se manifesta num sorriso e nas suas mãos estendidas para quem quer que seja.”

 

 

Na contemplação do mistério do Natal, é possível identificar que a atitude divina é de descentramento e de esvaziamento do próprio eu. Por meio da encarnação do Filho, Deus sai de si mesmo e vai ao encontro do ser humano. A forma do agir divino é de comunhão com a pessoa humana, tendo como horizonte a salvação e a vida plena. Assim, o nascimento de Jesus rompe com qualquer espaço de afastamento, de distância, porque a partir daí, Deus quer estar muito próximo de todos os seres humanos. A grande mensagem do Natal é, nesse sentido, a exemplo do próprio Deus, viver as virtudes da presença e do encontro. A encarnação do Filho revela que, continuamente e cotidianamente, o ser humano deve-se levantar de seus lugares e posições, porque há sempre uma realidade a ser resgatada, um coração machucado a ser consolado, uma vida humana a ser resgatada. É preciso, em sintonia com o Menino de Belém, despojamento e liberdade para ir ao encontro daquelas realidades feridas que esperam, daqueles ambientes atrofiados que precisam ser curados, daqueles espaços de exclusão que precisam ser visitados e tocados com a misericórdia e a compaixão, sinais da própria presença de Deus.

 

 

O contexto atual que permeia a sociedade, marcado pela intolerância, pelo ódio e pela violência, deixou de encontrar inspiração no mistério do Natal. A imagem divina, sinal do amor-compaixão como fonte essencial, é utilizada para potencializar sentimentos destrutivos e violentos entre os seres humanos. Todavia, a novidade do Natal é revelar o Messias da Paz, um Deus que se aproxima, que vai ao encontro e se faz presença na vida de todos, sem distinções. A luz que brilhou na Noite Santa da encarnação do Filho de Deus, ofusca as trevas que destroem e desumanizam a vida, rompe as barreiras que dividem os seres humanos, derruba os sentimentos de prepotência e grandeza. A verdadeira vivência do espírito natalino, longe de limitar-se aos paradigmas consumistas e de idolatria aos bens materiais, é ser sinal de comunhão, de encontro, partilha e solidariedade. Viver o Natal é missão de todo o cristão, que busca ser no mundo sinal da presença de Deus. Por isso, nos tempos hodiernos, é o próprio ser humano o verdadeiro lugar a partir do qual Deus se encontra e se dá a conhecer. Cada ser humano é o autêntico lugar da eterna presença de Deus. Cada ser humano é Belém (Bēt Lehem, em hebraico, “casa do pão”), porque é convidado a ser pão de compreensão, proximidade e compaixão. Este é o verdadeiro Natal: que em Jesus, os espaços cotidianos sejam vinculares de encontros humanizadores e de reconhecimento da dignidade de todas as pessoas.

Feliz e abençoado Natal!

Luciano Dalmolin

Seminarista