Esta é a 141ª Romaria de Nossa Senhora de Caravaggio, do Santuário de Farroupilha, mas será a primeira vez que ocorrerá de forma exclusivamente virtual. Isso, por si só, torna o fato histórico. Por isso, muitos devotos e romeiros irão encarar este 26 de maio de uma maneira bastante diferente – e cada um encontrará uma forma de viver este momento tão emblemático e difícil. O coronavírus impossibilitará que milhares de devotos repitam a rotina do peregrino de Caravaggio: acordar cedo, caminhar dezenas de quilômetros, driblar as bolhas nos pés e a sensação de exaustão. Todo romeiro, no entanto, sempre garantiu que tamanho esforço físico é recompensado ao se aproximar da centenária estátua de Nossa Senhora de Caravaggio e rememorar as razões que o levaram ao Santuário. Uma graça alcançada, uma promessa, um pedido. O momento é diferente: neste ano, a caminhada será espiritual e levará, entre as preces, a súplica pelo fim da pandemia.

Entre as histórias de romeiros que vivem Caravaggio no dia a dia, está a da jornalista Babiana Mugnol. Apresentadora do programa Gaúcha Hoje da Gaúcha Serra, colunista de economia do Caixa-Forte do Jornal Pioneiro da RBS e, claro, mãe da Celeste, a Babiana é natural da comunidade de Caravaggio, interior de Farroupilha. Veja abaixo as razões que tornam impossível desassociar a trajetória da Babiana com Nossa Senhora de Caravaggio e como ela viverá este inesperado 26 de maio. A entrevista faz parte da série #MemóriasDeRomeiros.

Santuário de Caravaggio: Quantas romarias você já vivenciou? Tem ideia de quando foi a primeira ida como romeira ou devota?

Babiana: Minha mãe conta que a minha primeira romaria foi com nove meses. Temos, inclusive, um registro em que me colocam em cima de uma moto, na pré-romaria dos motociclistas. Sendo assim, já somo 32 romarias, pois fui em todas desde então. Como minha família mora muito perto do Santuário, frequentemente ia a pé. Quando me tornei jornalista, passei a me locomover de carro para chegar bem cedo para a transmissão.

Santuário: Quando o assunto é Romaria de Caravaggio, você tem alguma memória imediata? Alguma história que marcou, algo que mereça ser contado?

Babiana: Minha primeira experiência em rádio foi em uma romaria. Eu já tinha experiência em jornal, mas foi ali que despertou minha paixão pelo rádio. Trabalhei como produtora da rádio Miriam (a rádio do Santuário). Depois, em uma cobertura pelo jornal Pioneiro, me marcou a história de uma moradora que entrevistei no caminho dos romeiros, que contou que guardava chinelos ao longo do ano, para doar aos fiéis que chegavam com bolhas ou com os calçados que feriam os pés nas romarias.

Santuário: Como é o envolvimento familiar com a Mãe de Caravaggio: vocês têm alguma história bacana de devoção?

Babiana: Meu pai, que faleceu em 2016, ia na missa em Caravaggio todos os domingos. Desde que ele partiu, toda vez que vou ao santuário, sinto como se ele estivesse lá, na porta principal, fumando o cigarro e conversando com outros moradores da localidade no final da missa. A romaria, para os moradores da comunidade, sempre teve uma conotação festiva, um momento aguardado o ano inteiro. Lembro que quando era criança queria ir na romaria porque era diferente de ir na missa aos domingos. No dia 26, também tinha pão com salsichão e ganhava um balão de gás. Lembro também de ir com minha mãe a pé ao santuário, eu com oito anos, ela, grávida de sete meses. Minha mãe ainda não sabia que eram gêmeas, mas a caminhada era para pedir saúde para o bebê. Na oração dela, sempre dizia: antes de vir uma criança com problema, que venham duas com saúde. Elas nasceram pouco tempo depois, uma delas prematura, mas que se recuperou rapidamente apesar do susto. Depois da história dos meus pais com o santuário, vem a minha também.

Foi lá que casei em 2016. Lembro de ir no início do ano, com meu pai e meu marido, para marcar a data do dia 17 de dezembro. Porém, meu pai descobriu um câncer no final de agosto. A doença avançou rapidamente e os médicos disseram que talvez ele morresse antes do casamento. Ao receber a notícia, uma semana antes do aniversário do meu pai, resolvi antecipar a cerimônia religiosa. Marquei para a data do aniversário dele, em 18 de outubro, como forma de tornar este dia um pouco mais alegre para ele. No dia 4 de dezembro, ele morreu. O reitor do Santuário, padre Gilnei Fronza, celebrou meu casamento e o funeral do meu pai no mesmo ano. Três anos depois, celebrou também o batizado da minha filha, em janeiro deste ano. Toda a minha história familiar tem envolvimento com o santuário.

Santuário de Caravaggio: Você tem alguma tradição envolvendo o Santuário?

Babiana: A santa de Caravaggio me acompanha sempre, onde quer que eu vá. No final de 2018, foi comigo até o ponto mais extremo do continente, Ushuaia na Patagônia Argentina. Percorremos mais de 12 mil quilômetros de carro sem furarmos nenhum pneu. A oração da santinha ia na carteira e, todas as manhãs antes de pegarmos a estrada, pedíamos a proteção de Nossa Senhora. Também tenho uma capelinha com a santa de Caravaggio, que agora está no quarto da minha filha. Todas as noites, canto o hino do santuário para ela dormir. Outra relíquia que guardo é a água do santuário de Caravaggio, na Itália, que visitei quando morei por cinco meses no país, em 2012.

Santuário de Caravaggio: Enquanto devota, qual tua sensação em participar desta romaria neste formato virtual – o que achou da decisão, como recebeu a notícia?

Deu um certo alívio saber que a romaria seria realizada desta forma. Como jornalista que noticia todos os dias o aumento de casos de coronavírus no país, seria impossível imaginar qualquer tipo de controle de aglomerações em um evento religioso das proporções de Caravaggio. Acredito que a devoção vai seguir da mesma forma, mesmo sem estar no santuário, porque o importante é a intenção. Com a internet, é possível “se transportar” ao santuário em segurança.

Santuário: E como você e sua família devem acompanhar a romaria este ano?

Babiana: Vou procurar um lugar tranquilo, que me transmita paz assim como é em Caravaggio, para fazer minhas orações nesta romaria. De qualquer forma, será uma romaria histórica.