SIMBOLOGIA CRISTOLÓGICA E EUCARÍSTICA

 

O Santuário de N. Sra. de Caravaggio apresenta algumas intervenções artísticas no tabernáculo do Santuário. A principal delas diz respeito à substituição da imagem do cálice e da hóstia pela de um pelicano, na porta em madeira. Executou a obra o artista Jorge Rafaeli.

 

 

O pelicano (pelecanus) é uma ave marinha pertencente à família pelecanidae. Existem oito espécies conhecidas, todas detentoras de um bico comprido e de uma bolsa na garganta. Na natureza, o pelicano guarda comida no depósito (bolsa gular ou papo) de seu singular bico e, ao chegar no ninho, golpeia seu bico e sua bolsa contra o peito para regurgitar e oferecer aos seus filhotes o alimento guardado. Desde a antiguidade, porém, o pelicano foi aparecendo como representação de diversas qualidades, dentre as quais a caridade. O pensamento era de que a ave se flagelava violentamente para dar de comer aos seus filhotes o próprio sangue.

A ação do pelicano foi também interpretada ao longo da história cristã como um elemento relacionado ao sacrifício de Cristo na cruz, quando de seu peito jorraram sangue e água. A arte cristã expressou, por meio da imagem do pelicano, a entrega eucarística de Jesus Cristo, como verdadeiro alimento para a vida eterna. As próprias gotas de sangue que saem de seu peito expressam o lado aberto de Jesus Crucificado. Dizia Santo Tomás de Aquino (hino Adoro Te Devote): “Ó bom pelicano, nosso Salvador, limpa no teu sangue todo pecador! Dele uma só gota lava todo mal, faz do mundo inteiro lúcido cristal”.

 

 

Para a fé cristã, o sacrifício de Jesus é ação livre e amorosa de Deus em nosso favor. Assim como as uvas são esmagas e o trigo é moído para se tornarem eucaristia, o corpo e sangue de Jesus foi esmagado e moído na cruz para vencer o pecado do mundo, nos resgatar e redimir, nos libertar e salvar da morte eterna. Deus é Amor e se fez homem por amor solidário, misericordioso e justo, revelando-se verdadeiramente como o Bom Pastor que “dá sua vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11) ou como o Bom Pelicano que dá sua vida pelos seus filhotes. Trata-se da resposta ao questionamento “Por que Deus se fez homem?” (Cur Deus homo), questionamento esse tão antigo e sempre atual. É a missão redentora e salvífica de Cristo. Jesus nasceu e morreu, nada maior nem mais justo pode ser pensado, pois “por suas feridas fomos curados” (1Pd 2,24).