Pelo terceiro ano consecutivo, celebra-se a Jornada Mundial dos Pobres, uma convocatória posta em marcha por iniciativa do papa Francisco e que se comemora em todo o mundo, domingo 17 de novembro. Esta edição tem como objetivo “ser testemunhos da esperança cristã no contexto de uma cultura consumista e de descarte, orientada a acrescentar o bem-estar superficial e efêmero” em que faça possível “uma mudança de mentalidade para redescobrir o essencial dar corpo e efetividade ao anúncio do Reino de Deus”.

A ideia de impulsionar a Jornada nasceu em 13 de novembro de 2016, coincidindo com o fechamento do Ano Santo da Misericórdia quando, na Basílica de São Pedro, o Santo Padre celebrava o jubileu dedicado às pessoas marginalizadas. De maneira espontânea, ao finalizar a homilia, Francisco expressou seu desejo de “que hoje seja a Jornada dos Pobres“.

O lema sob o qual se convoca essa III Jornada é “a esperança dos pobres nunca se frustrará”(Sl 9,19). Assim como naquele contexto do salmista, a realidade hoje não é muito diferente. Encontramos tantos pobres a cada dia! Às vezes parece que o transcorrer do tempo e as conquistas da civilização, em vez de diminuir o seu número, os tem aumentado.

Tantas são as pessoas sem abrigo e marginalizadas que vagueiam pelas ruas das nossas cidades. É comum vermos os pobres nas lixeiras a catar o descarte e o supérfluo, a fim de encontrar algo para se alimentar ou vestir. Tendo-se tornado, eles próprios, parte duma lixeira humana, são tratados como lixo, sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices deste escândalo.

O clamor dos milhões de pessoas que vivem em situação de marginalização tem aumentado e abraça a terra inteira. Reconhecemos uma multidão de pobres, muitas vezes tratados com retórica e suportados de forma tediosa. Como que se tornam invisíveis, e a sua voz já não tem força nem consistência na sociedade. Homens e mulheres cada vez mais estranhos entre as nossas casas e marginalizados entre os nossos bairros.

Como recorda o Santo Padre em sua mensagem, “os pobres não são números aos que se possa recorrer para alardear com obras e projetos. Os pobres são pessoas as quais se precisa ir ao encontro: são jovens e anciãos que se pode convidar para entrar em casa para compartilhar uma comida; homens, mulheres e crianças que esperam uma palavra amistosa. Os pobres nos salvam porque nos permitem encontrar o rosto de Jesus Cristo”.

Francisco se refere a todos aqueles que hoje em dia encarnam os rostos da pobreza, como são as “famílias que se veem obrigadas a abandonar sua terra para buscar formas de subsistência em outros lugares; órfãos que perderam seus pais ou que foram separados deles, violentamente, por causa de alguma brutal exploração; jovens em busca de uma realização profissional, os quais se impede o acesso ao trabalho por causa de políticas econômicas míopes; vítimas de tantas formas de violência, desde a prostituição até as drogas, e humilhadas no mais profundo do seu ser”.

Constitui um refrão permanente da Sagrada Escritura a descrição da ação de Deus em favor dos pobres. É Aquele que “escuta”, “intervém”, “protege”, “defende”, “resgata”, “salva”… Passam os séculos, e a Bem-aventurança evangélica – “Felizes vós, os pobres” (Lc 6, 20) – apresenta-se cada vez mais paradoxal: os pobres são sempre mais pobres, e hoje são-no ainda mais.

Colocando no centro os pobres ao inaugurar o seu Reino, Jesus nos quer dizer precisamente isto: que inaugurou, mas confiou-nos, a nós seus discípulos, a tarefa de lhe dar seguimento, com a responsabilidade de dar esperança aos pobres. Também, Jesus não teve medo de Se identificar com os marginalizados: “Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40). Esquivar-se desta identificação equivale a ludibriar o Evangelho e diluir a revelação. Disso depende a credibilidade do nosso anúncio e do testemunho dos cristãos. É um programa que a comunidade cristã não pode subestimar.

A opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora, é uma escolha prioritária que os discípulos de Cristo são chamados a abraçar para não trair a credibilidade da Igreja e dar uma esperança concreta a tantos indefesos. É neles que a caridade cristã encontra a sua prova real.

As motivações e exortação do papa, apresentadas acima, indicam que nossa solidariedade com os pobres precisa se revestir de um caráter mais comprometedor. Para além de ações caritativas isoladas, devemos oferecer meios para que possam sair da situação de abandono e de miséria em que se encontram.

Ressalto que o acolhimento da proposta do Papa, para que se promova o dia “Dia Mundial dos Pobres”, ou, como estamos chamando aqui no Brasil, “Jornada Mundial dos Pobres – Semana da Solidariedade”, não significa a realização de mais um evento em favor dos pobres, mas o planejamento e efetivação de ações que os liberte da situação de miséria e abandono em que se encontram.

Nesse sentido, são propostas muitas atividades mobilizadoras para esta IIIª Jornada Mundial dos Pobres. Atividades essas que visam mobilizar as paróquias, grupos, pastorais, tais como:

– Rodas de conversa com as pessoas em situação de vulnerabilidade e lideranças populares sobre a situação social/política e econômica do país.

– Diálogos com os atores protagonistas das lutas sociais sobre desafios do cotidiano, direitos básicos e formas de organizações populares.

– Celebrações da Palavra e Eucarísticas.

– Campanhas de cidadania com atendimentos sociais, atividades lúdicas e esportivas.

– Partilha fraterna das refeições. Organização de um café da manhã, almoço ou jantar com as pessoas e partilha da mesma mesa.

– Atividades de formação e convivência em espaços de medidas socioeducativas, asilos, orfanatos, presídios, com pessoas em situação de rua, entre outros espaços e grupos.

Importa recordar que o compromisso com os pobres é tarefa de todos na Igreja. Uma comunidade que não se compromete criativamente com a causa dos pobres, “facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios” (EG 207).

Fonte: Instituto Cultural Padre Josimo