Italiano nascido em Piazza Brembana, na Província de Bergamo, Dom Alessandro Ruffinoni chegou a Caxias do Sul para suceder o bispo Dom Paulo Moretto em 2010. Ele acreditava desembarcar em uma cidade onde a descendência italiana seria preponderante – e é claro que a origem italiana forma uma grande parcela populacional e tem relevância incontestável, mas Dom Alessandro encontrou algo além: uma região de diferentes etnias, onde a migração só aumentava e a capacidade de acolhida também. “Muito obrigado e bem-vindo” foram as duas expressões que Dom Paulo destinou na chegada de Dom Alessandro, que agora entregará a Diocese de Caxias do Sul para o bispo Dom José Gislon em cerimônia no dia 8 de setembro, na Catedral Diocesana. Foram mais de nove anos de trabalho e descobertas, ao desbravar a Diocese em uma visita pastoral que se estendeu por cinco anos.

Na semana em que completa 76 anos de vida, Dom Alessandro se prepara para encarar novos desafios e eleger quais serão os novos caminhos que trilhará. É difícil decidir os próximos passos com tantas possibilidades que chegam, mas ele garante que o carinho nutrido pelo povo da Diocese de Caxias do Sul permanecerá intacto. E não planeja ficar muito distante.

Dom Alessandro é também conhecido como um bispo acessível, bem-humorado, justo e conectado – está presente nas redes sociais e usa a comunicação digital para reforçar os laços com a comunidade. A trajetória do menino humilde que morava na Província de Bergamo, nas “montanhas da Itália”, como descreve, até a chegada ao bispado na Serra Gaúcha passa por alguns temas e conquistas que Dom Alessandro se orgulha de enumerar.

Confira este bate-papo com o atual bispo da Diocese de Caxias do Sul, que completou 76 anos nesta segunda-feira (26 de agosto) e recebe homenagens e carinho pelo trabalho entregue na Serra Gaúcha de diversas formas.

 

 

Santuário: Dom Alessandro, como foi o início de sua caminhada sacerdotal?

 

Dom Alessandro: Eu entrei no Seminário aos 11 anos, e ele ficava a 320 quilômetros de casa. Foi uma aventura. Minha mãe me acompanhou, carregando um colchão junto, o que era obrigatório na época. Quem me ajudou a pagar a mensalidade do seminário foi meu irmão, que trabalhava com contabilidade, e ele salvou nossa casa, na verdade. Eu era considerado o mais pobre do Seminário e por isso pagava a menor mensalidade. Quando cheguei lá, fiquei sozinho, sem mãe, longe dela. Era assim, e eu via eles (pai e mãe) uma ou duas vezes no ano. Mas a vontade de ser padre era grande – em casa, eu morava a uns 50 metros de uma igreja e já era coroinha. Fui ordenado padre com 26 anos e bispo aos 62 anos.

Santuário: E como foi que a vontade de conhecer e trabalhar no Brasil surgiu?

Dom Alessandro: Os padres brasileiros, na maioria de origem italiana, tiravam férias do Brasil e iam para o Seminário que eu estudava. Então foi criando esta vontade, e quando ordenados, podíamos descrever lugares que gostaríamos de trabalhar. E eu escrevi o Brasil. Minha primeira experiência foi aqui, em Casca, Guaporé, Serafina Côrrea. O que sou como padre e bispo, aprendi aqui. E a falar português, aprendi em Casca, quando dava aulas de religião e história.

Santuário: E com a nomeação para a Diocese de Caxias, qual foi sua expectativa?

Dom Alessandro: Entre as dioceses que eu desejava, estava, sem dúvidas, a de Caxias do Sul. Mas me falavam que era uma diocese italiana, que era basicamente isso que encontraria. O núncio considerou minha origem italiana para a nomeação, e sim, Caxias é italiana, mas não só isso. Caxias tem todos os povos, riqueza de etnias, e fui muito bem acolhido. Conheci Dom Paulo em Porto Alegre. Ele já estava com a saúde debilitada, mas me disse com firmeza: “muito obrigado e bem-vindo”. Depois, comecei a visitar todas as paróquias por cinco meses, conhecendo os padres e as realidades de cada lugar. Mas aprofundei tudo isso nas visitas pastorais, a parte mais importante do meu bispado.

 

 

 

Santuário: Como foram as visitas pastorais?

Dom Alessandro: A visita pastoral é um dever do bispo, está no direito canônico que a cada cinco ou seis anos, o bispo deve visitar todas as comunidades. Foi o que fiz nestes cinco últimos anos. As capelas, as grutas, os salões: estive onde se encontra gente. São 74 paróquias, 973 comunidades. A visita pastoral é também uma maneira do bispo ser mais conhecido, porque tem gente que só conhece ele pela televisão, pelo jornal. A chegada do bispo nas comunidades sempre era um acontecimento bonito. Conheci a estrutura das capelas, as dificuldades, a vida de todos. No interior, o povo quer conhecer o bispo. Fazia chuva ou frio, tinha gente esperando. Os encontros não eram uma missa, eram um momento de oração, de contar histórias. Mas o melhor momento não era feito do que eu falava, e sim, do que eles falavam. Era uma troca bonita.

 

 

Santuário: Seu lema do bispado é “Na Igreja, ninguém é imigrante”, e este foi um tema cuja proximidade com sua caminhada foi evidente. Suas experiências com a migração em território caxiense foram positivas, bispo?

Dom Alessandro: Foi uma experiência muito bonita porque logo que me estabeleci, foi quando começou a chegar os primeiros migrantes. Os ganeses, senegaleses, enfim. Chegaram de ônibus e ninguém estava preparado para acolher o grupo. Nós ajudamos com acolhimento, ficaram um, dois meses até que conseguissem documentação. O que eles queriam, como todos nós, era trabalho. Eu senti que no geral, o povo apoia, ajuda, acolhe. Pode até ter algum desentendimento, mas quando acontece, é motivado pela preocupação com trabalho.

Santuário: Bispo, então em épocas que se reverbera a construção de muros e a xenofobia, a igreja tem uma missão ainda maior?

Dom Alessandro: Construir muros é a maior furada que estamos fazendo. Não é com muros, com preconceito, que vamos resolver. A migração existe desde que a humanidade existe. Abraão, os hebreus, o Império Romano. Nem o Império Romano conseguiu segurar as migrações. Não adianta fechar as portas ou deixar de socorrer. A migração é um direito do humano, e a igreja tem a missão de acolher a todos. Durante 12 anos, fui encarregado na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) na Pastoral dos Brasileiros no Exterior. Viajei para vários lugares do mundo para mostrar que a igreja não abandona o brasileiro. Fui para Londres, Bruxelas, Boston, Atlanta, New York, Florida, Japão, diversos lugares. Ajudar os migrantes é meu lema, tudo isso faz parte da minha caminhada.

 

Ao sucessor, quais assuntos da Diocese ele pode dar continuidade e obter excelentes resultados, bispo?

Temos que trabalhar sempre para valorizar os leigos, ajudar outras igrejas, olhar para o clero, para nossa catequese. Ele vai encontrar uma Diocese muito forte de lideranças, tanto de leigos, quanto de padres. E precisa trabalhar as vocações, este é um desafio, além de cuidar da saúde dos nossos padres. E sobretudo, estar perto do povo de Deus.